sábado, 25 de setembro de 2010

E foi então que eu me vi sem saber aonde estava. De fato a rua não convidava a um passeio, mas as árvores robustas e as calçadas coloridas me faziam curiosa o suficiente para atravessar uma ponte. Não sei ainda controlar minha curiosidade, é quase uma teimosia dessas de criança. Mais que admirar as cores e o vento, eu insisto em reafirmar que a rua é minha. Como poderia não ser, se fui eu quem a vi cheia de flores e lotada de passarinhos. Fui eu quem inventou essa calçada, esse beco, esses galhos partidos no chão. Eu dei um nome a esssa rua. Eu quis andar, sentar e admirar cada passo dado nela. Eu desenhei todas as mesas, as praças, os sorrisos que existiam ali. Mas como todas as coisas que não são minhas, a rua também não era. E não tinha saída e eu fiquei presa entre todas as coisas que eu cativei, que eu cuidei e que eu acreditei. Nunca poderia ser dona de uma rua tão cheia de pessoas. Tão lotada de esperanças. E toda vez que insisto em dar uma passadinha por lá, acabo encontrando novas placas, novos olhares e novos sorrisos. Não são os sorrisos que eu desenhei. Não são meus sorrisos. São outros olhares tentando reinventar a rua que não foi minha. Começo a molhar tudo ao meu redor na esperança de deixar ali um pouco de mim, eu que admirava essa rua como ninguém. Eu que estava confortável ali, agora deixo somente um punhado de qualquer coisa para quem quiser passar. Ninguém vai poder andar nessa história com os meus passos, mas todos vão sentir a minha presença, essa que eu deixei pelo caminho.

domingo, 8 de agosto de 2010

Em contramão


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Foi uma coisa mais ou menos assim que aconteceu naquele final de verão. Eu pensava no caminho de volta, mas não tinha mais ninguém ali.
Podia procurar sozinha, mas prefiro as descobertas das mãos dadas. Nem uma árvore tinha.
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Então, com os olhos embaralhados de fantasias que não eram as de carnaval, eu senti um assopro e acreditei ser vento, acreditei ser a minha direção, enfim. Aquelas coisas que a gente acha que apareceram derrepente para salvar o final da história... E mudei o meu caminho. E desviei meu olhar justamente para poder te acompanhar.
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Mas mal pisquei já havias sumido, eu que sequer dormi, apenas pisquei. Se soubesse que duravas o tamanho de um segundo sem mim, não teria te contado que o meu segundo era feito de jardim, de céu, de colher, de gota, de abraço, de sol, de pijama, de açúcar. Teria te mentido que eu durava uma eternidade e que os segundos seriam só de beijos. Mas não sei mentir.
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Teria então te apertado até te fazer entender que a minha força não é feita nas mãos. Mas fui inventar de tocar os meus olhos para poder te ver. Antes tivesse tropeçado e dado com a cara no chão de uma vez.
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Assim me poupava de escorregar e cair para dentro de mim, e perceber que estava ali naquele lugar que nem árvore tinha. E sem vento agora. Sem sopro nenhum de coisa nenhuma. E em pleno inverno. Vou acabar congelando os meus sonhos de uma vez por todas.

sábado, 5 de junho de 2010

Capítulo I

“Apesar de não ter me comportado na sutileza da tua presença minha indiferença transpôs qualquer possibilidade que ainda não havia, e eu prossegui. Prossegui sem perceber. E todo percurso parece ter sido enfeitado justamente para que o reencontro fosse assim. No instante em que te olhei, senti um alívio desesperador: Não saber onde estava o limite do descompasso era a minha maior angústia. Eram as minhas ausências desejando a tua presença. Era a tua poesia encontrando a minha realidade. Foi então, que o nosso amor, quis ser para sempre aquilo que já havíamos perdido pelo caminho. Uma verdadeira bossa nova.”

sábado, 27 de fevereiro de 2010



Era uma vez uma menina que queria crescer rápido. Tão rápido que sempre corria na frente do tempo, pensando enganar o relógio. Era apressada, comia antes que todos, sabia de véspera o que vestir e não aceitava novidades, pois não gostava de surpresas nem para descobrir o que tinha dentro do pacote. Sonhava com as coisas da vida adulta. Diariamente se via moça feita. Não conseguia decidir entre duas coisas, pois queria uma terceira, a de menina crescida. Quando a vida adulta demorava para acontecer, ela enganava o destino e corria atrás do tempo que julgava perdido. De tão apressada vivia de joelho roxo mas não perdia um minuto nem pensando no que havia acontecido. Nem pensando. E acelerou tudo. Acelerou tanto, que quando olhou para trás, estava sozinha. Ninguém conseguia acompanhar seus passos apressados. E ficou esperando alguém chegar, e ninguém apareceu. Só o tempo. Logo esse de quem tanto fugiu, foi quem a encontrou sentada esperando alguma coisa. E o tempo se revoltou com a menina, e inventou um castigo. Profetizou que dali para frente, ele iria enganá-la. É que ela não gostava de ser menina, e o tempo não entendia. Ela comprou relógios e passou a fazer vigília na tentativa de despistar o tempo, que não cansava de pegar no seu pé. Um dia, desavisada, cresceu e nem percebeu, pois estava muito preocupada em despistar o tempo. E foi quando cresceu de fato é que deu-se conta que andou sempre sozinha. E foi quando o tempo apareceu de novo, vitorioso não precisou falar nada: calou-se. O castigo havia funcionado. Ela entendeu. Entendeu que o tempo passara muito depressa, e que nunca o deveria subestimar. O tempo foi o único, que silencioso, sempre esteve ao seu lado. Foi o único a adorar sua companhia, e o único que ela desprezou. E foi daí então que ela decidiu cativar o tempo... para tentar ser menina só mais uma vez.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

( )


E eu me perguntei quais seriam então os motivos pelos quais me economizaram cinco minutos de palavras dedilhadas... O porquê de tamanha covardia. E sem respostas, ocupei esses espaços com as minhas próprias fantasias.

Re-trato



Eu não consigo manter uma imagem intacta nem ao menos em sonho, nem acordada, nem fechando os olhos, nem me concentrando. A pintura some assim que nem uma coisa que não foi de verdade, como uma história infantil dessas comuns, como essas umidades de verão. Como a umidade dos meus olhos agora. Na verdade, é que eu olho pra dentro tentando reconhecer alguma linha de um traço contínuo que antes eu percorria com meus dedos e fazia desenhos do meu destino.
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Fica então como um livro que não se acha mais as edições para comprar- que a leitura prendia-, desses que não se pode perder por aí. Mesmo olhando a parede, ou um ponto qualquer de todo lugar, eu não consigo mais fazer retratos e isso é uma maldição. E tudo porque quando me dei conta que estava afogada, ironicamente só conseguia espichar os olhos para perceber a beleza de um mar verde e calmo, que nem se importava em me levar e me devolver na beira da praia depois da ressaca. Mar raso. Mar que deixou as outras paisagens cinzas.
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E ainda assim, depois de tanta unha roída, ainda estabeleço pontes erguidas em cima de quase nada achando que talvêz uma hora dessas, eu consiga recordar de mim mesma. Por hora, só lembro de um dia, o mais dolorido de todos, que me arrancava de dentro dos ossos um desespero tão grande, e que a cada sinaleira se eternizava. Cada esquina não significava ir em frente. E eu sabia. E foi quando cheguei em casa que eu percebi que estaria irremediavelmente lúcida, incapaz de sonhar outra vez.
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"Nesse dia, pois, ele conheceu uma das raras formas da estabilidade: a estabilidade do desejo irrealizável. A estabilidade do ideal inatingível. Pela primeira vez, ele, que era um ser votado à moderação, pela primeira vez sentiu-se atraído pelo imoderado: atração pelo extremo impossível. Numa palavra, pelo impossível. E pela primeira vez teve então amor pela paixão."
Clarice Lispector.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Síndrome do Masoquismo Secundário




Não é primário porque eu já não cozinho em primeira fervura. É masoquismo porque tem elementos de ódio de mim mesma, projetados em ações inconscientes que ocasionam mal estar. É síndrome pois não tem cura. Se é genético não sei, há indícios- sendo síndrome -com certeza. Minha mãe não usou entorpecentes na gravidêz. Esta patologia gera danos psíquicos e fisiológicos, podendo chegar ao auto flagelo. Não é perceptível no contato social superficial cotidiano, mas amigos próximos e familiares já conseguem perceber manifestações da doença.
É crônico. Pode ser controlado com doses de tequila, mas pode ser triplicado com excesso dessas doses. Champagne é mortal e impulsiona novas crises. Pode ser fatal. Não pode ser controlado com remédios. A redução dos sintomas acontece na medida em que há isolamento social, ou seja, redução das variáveis. As situações de auto punição são as mais diversificadas possíveis, variam de uma leve auto rejeição até uma repulsa total de si mesmo. Se alguém souber a cura me avisa. Não é punição clichê por culpa, pois não são coisas relacionadas à moral, regras, lei ou ética, o que geralmente se rompidas, geram culpa. Aliás, tudo dá vida à culpa. Menos minha síndrome. Quando coisas felizes acontecem, a síndrome ganha força e empurra para um pessimismo agudo e uma idéia de que o mundo vai acabar, sendo seguido de atos de auto flagelo, mencionados anteriormente. O mundo vai acabar mesmo, os Maias já sabiam.
Cafeína alivia sintomas. Duas xícaras apenas. Não tem relação ou vinculação com conotações de libido ou impulso sexual. Nada a ver. Vou escrever uma tese sobre isso. Face book é um sintoma forte de masoquismo secundário. Cuidado. Reconhecer a doença é o primeiro passo para o tratamento.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Lampejos




Estava certa quando há muito tempo atrás, eu em minha vasta ignorância, dizia para minha mãe, "tudo já acabou", querendo profetizar o início do fim. Ela sacudia a cabeça. Não precisei ir no cinema assistir os prenúncios das catástofres climáticas que vão derrubar nosso planeta para saber que uma pequena alteração no termômetro é normal, mas que no tempo que nós contamos ela estaria muito precoce. O final está próximo. Não vamos ver, eu sei, mas próximo no sentido astronômico. Os noticiários já estão repetitivos demais, anunciando mortos em enchentes, tufões em locais estranhos, tempestades fora de estação, secas intermináveis, e tudo ao mesmo tempo, no mesmo mundo. Minha primeira enchente foi em Daniela, tinha 6 ou 7 anos, me recordo de cada detalhe. Era um avançar tão rápido da água em nossa casa, uma gritaria tão histérica, um levantar de roupas e móveis, recordo que os sapos fizeram uma festa, e eu outra. Não tive dúvida: Peguei um chinelinho que boiava, e eu com a água pelas canelas, junto com o primo dudu, colocamos nossos playmobils em cima do chinelo, e ficamos acompanhando o "barquinho" avançar até a praia. Salvava uma vida. Eram aventuras muito interessantes as que eu realizava dentro de mim. As tragédias eu banalizava ou transformava em poesia. Hoje está mais difícil brincar de esquecer quando a chuva aperta. E a chuva aperta sempre.

domingo, 30 de agosto de 2009

Sem palavras...

Before sunset

Desde minha adolescência, ainda continua muito expressivo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Porque diálogo é fundamental II

Salve pra rapaziada da Xurupita tb!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Miragem




E de mim foi feita eterna miragem ou água que não mata a sede; água pura em rio distante, pura água, não amante.
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Era sol, era escaldante; queima tanto que me mata, sol de prata, sol brilhante, vida rara, morte errante. Lua nova, eu minguante.
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Já não via em meio ao nada, chuva farta me afogando. Sol invade, é vida, é tarde? Se não arde, vira pranto; molha tanto, enxuga a face, seca a boca, tranca a fala, fere a alma, cala o canto.
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Corre vento, corre estrada, corre o tempo que é miragem, que se apaga (é fogo brando.)
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E assim sem ser achada, sem saber sem quase nada, sucumbi por ser teu anjo. Neste céu faz-se a morada, deste conto que foi parte, de um tormento ou desengano.

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Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo que está onde as outras coisas nunca estão, deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão. -Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada. Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte. Voou meu amor, minha imaginação... Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. (Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.

(Cecília Meireles)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Toxidade Transgeracional Sistemática





É difícil saber exatamente como ocorre nossa criação, formação, constituição psicológica enquanto seres pensantes que somos. Mesmo no decorrer da criação, já é óbvio que não somos apenas nós, mas reflexo do outro, seja este outro quem for. Quando são os pais biológicos, além do componente genético, a força desta impressão é infinitamente maior do que de outros cuidadores, mesclados entre família biológica ou não (tenho como comprovar estatisticamente essa tese, meu N é imenso). Além de não sermos nada perante o universo, ainda somos obrigados a ser o que sobrou do que podemos ser; a forma da impressão do outro e nada mais. Nossa cognição se acomoda com o que nos é depositado, e após uma certa idade, começamos a fazer associações, compreensões mais complexas, até a formação de nossa personalidade. Se nossa personalidade é fruto das impressões alheias (como a análise, parte do ponto de vista do analista) somos as frustrações do outro igualmente. Essa falta do outro, no outro, é traduzida em nossa vivência como anseios -nas famílias mais ajustadas, para não determo-nos em traumas e violência-, nos colocando em uma posição de difícil controle, pois já raciocinamos assim. Difícil ser autêntico neste sentido. Não são coincidências as semelhanças. Feliz de quem vive com isso muito bem obrigada, considerando este estado psicológico bem resolvido, vivendo o dia a dia, sem ao menos conseguir distinguir a si mesmo de sua invariada pseudo-autenticidade (talvez a toxidade tenha níveis); mas não se engane com o vazio que porventura surgir (às vezes vem disfarçado de sonhos), ele lateja como um sinal primitivo que traduz os instintos primordiais, esses que não pensamos muito, só sentimos e aí você vai se deparar com a ambivalência de quem é você afinal ou com uma agonia sem nome, mas ela tem nome e sobrenome também. Não tenha medo de desapontar papai e mamãe (ou as figuras que os substituíram), não se engane e seja magnânimo, dentro do possível já que fomos programados para não termos livre arbítrio (e não temos). Avós, bisavós, a por aí vai a árvore, fazem parte do time. E a culpa não é só da mãe. Felizes os primatas, hominídios e seres primitivos, pois tenha certeza, nada pode ser pior que a toxidade alheia, essa toxidade que nos empurra sei lá pra onde, sem ao menos ter sentido no depositário, sendo ela uma angústia do outro, um desejo do outro e não uma verdadeira obra prima de amor incondicional inexistente até por Deus (ele vigia também não é? Ele?). Bombardeios a parte, dos sonhos dos meus outros eu já sei, das angústias um pouco só, algumas delas ainda são um mistério, a pista é como eu fui elaborada, e a resposta está bem aí. Sinto não poder corrigir em mim essas angústias que não me pertencem, e sinto pelos outros também, pois as angústias vêm disfarçadas de bons conselhos. E se conselho fosse bom... Bom, isso todo mundo já sabe.


“Como vemos, o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas.” Freud- Mal Estar na Civilização.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Tal da Coisa




O que está entre as coisas todas e não está, ou a coisa em si, parece um vazio desgraçado sem coerência nenhuma, sem lógica, mas pode ser explicado perfeitamente. Pode ser dito pelo avesso, como o não vazio, como o que se preenche em seu lugar. Essa coisa então nomeada e preenchida, seja de matéria ou de idéia, seria fictícia? Sim, se amparada pela teoria de que os espaços vazios são vácuos e que idéias são factuais, empíricas, logo não podem ser a coisa toda; ou não, pelo fato de que são justamente essas coisas preenchidas de qualquer forma, que dão sentido a tudo mais e que nenhum espaço fica vazio. O problema deste dilema, que é vital, é que essas coisas, todas elas, podem ser fatais. Um suspiro e se foi. E se são, como poderiam ser fictícias? Poderiam ser ilusórias, no momento que entendemos o fatal pela razão pura, não de Kant, ou outra coisa pensante, mas de qualquer ser humano que se preze que resolveu escrever essa razão. Ser humano, pois toda fala e as leis são humanas. Então tudo é ilusório, se as coisas foram geradas a partir de um ponto no mínimo questionável; e as ditas coisas são partículas dessa ilusão, recriadas para dar algum sentido à coisa maior, que se desconhece devido impossibilidade de saber por si só, então a ilusão é grande embora imensurável. E a culpa não é da Grécia antiga. Nem dos macacos. A culpa já é outra coisa. Coisa pra Freud. Não entulhar os espaços então pode ser uma saída razoavelmente adequada para sobreviver nessa selva. O difícil é achar algum espaço puro ou resistir ao atoleiro coletivo universal de coisas empilhadas. O grande desafio neste caso, de nossa condição ridiculamente arrogante e precária é justamente o contrário de tudo que é proposto, é buscar o vazio absoluto de coisas e resistir a essa tentação do não entulho (para os não lobotomizados-restam poucos exemplares no mercado) já que somos apenas isso mesmo, essas mesmas coisas de sempre.

“Duas coisas enchem o ânimo de crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com mais freqüência e aplicação delas se ocupa a reflexão: por sobre mim o céu estrelado; em mim a lei moral. Ambas essas coisas não tenho necessidade de buscá-las e simplesmente supô-las como se fossem envoltas de obscuridade ou se encontrassem no domínio do transcendente, fora do meu horizonte; vejo-as diante de mim, coadunando-as de imediato com a consciência de minha existência. O primeiro, espetáculo de uma inumerável multidão de mundos, que aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal que tem que devolver ao planeta (um mero ponto no universo) a matéria de que foi feito depois de ter sido dotado (não se sabe como) por um curto tempo, de força vital. O segundo, por outro lado, realça infinitamente o meu valor como inteligência por meio de minha personalidade, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e também de todo o mundo sensível, pelo menos enquanto se possa inferir da determinação consoante a um fim que recebe a minha existência por meio dessa lei que não está limitada a condições e limites desta vida, mas, pelo contrário, vai ao infinito.” (Emanuel Kant)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Chove em mim




Deságua, derrama-me teu pesar que não é choro, que é um sair devagar, um transpor sem mágoa, um ir e vir de um lamento brando, rumo ao mar, a amar.


Evapora, sobrevoa meus sentidos gentilmente, me encharca sem me afogar, sem omitir de onde veio -de tão longe- e escreve minha história com tuas gotinhas delicadas, respinga a letra, no ar.


Desliza, chove em mim sem tormenta, pois se te revoltas me amedronta, e me perdes por inteira. Vem serena, me dissolve, vem me molhar.


Escorre em meus vazios, me ajuda a te sentir, te admirar, cai e levanta. Volta ao mesmo lugar. Sei que vais embora (vais me deixar assim que raiar). Mas sei que pressentes minha correnteza, e mesmo sem pedir, irás retornar.


Suplico que não grites alto teu poder, não mostra nessa luz tua majestosa agonia. Saibas suportar minhas dores, pois também me embalas quando estou em teu colo, no teu porto estável, se desencontrada.


E fica assim, na casa que criaste para tua eterna morada, onde vês teus filhos te renegarem. Não seca. Aceita, como uma mãe deve converter suas lágrimas para o seu fortalecimento, e oferece ao firmamento teu choro em vida, que vida em choro já é morte, ou implacável sofrimento

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Toca Raul!




E foi no sol que eu senti uma dor, de uma idéia de estar aqui e ali, como um não estar mais, as músicas eram todas cantáveis, contudo eu colocaria melhor esse som, ou a rádio iria à falência. Senti também que minha companheira alucinava e eu num mar de idéias, que são indissolúveis até adormecer, de manhã, e se acordo, elas parecem perder o sentido. E meus medos infantis? Nenhuma parte pode ficar descoberta, eles estão por toda parte. Qualquer barulho seria um disparar de arrepios e palpitações que não considero agradáveis. Seria inútil dizer que os medos de hoje não são medos igualmente infantis, se comparados a idade da existência e esses também se parecem com os de antes, disfarçados de corpo adulto, de forma madura, mas são medos mesmo assim. Esses de desintegração, de morrer de medo, medo do medo. Mesmo sabendo das conseqüências desta situação não me animo mais modificá-la, devido aos estragos feitos quando tento consertar alguma coisa. Então fico aqui, aqui dentro, dentro desse lugar em que minha velocidade não consegue acompanhar o mundo, fico aqui, nesse lugar aonde posso voar. Sinto também esse calor, esse que muda tudo de uma vez só, às vezes queima. Não quero queimar, quero abraçar. Tudo já foi cantado, dito, repetido, não existe outra forma de explicar o que acontece só o que já aconteceu. Nada hoje é mais valioso que ontem. Ontem foi autêntico. Incrível quem ainda consiga se iludir, não pode ser por falta de inteligência, pelo menos não os letrados, tampouco por falta de fé, os mais sensoriais. Deve ser uma esperança de que alguma coisa aconteça. E sempre acontece, mas não o esperado. Depois fica tarde para concluir. Pode ser conformidade também, em ver o átomo e não a constelação, mesmo que considere esta última mais interessante embora não possamos tocá-la. Eu sigo a planar, mas não vôo alto demais para não perder a orientação de onde estou; perdida minha alma já está, salvemos então o corpo pela lógica inversa. Cadê o sol? Há sim, já anoiteceu, já é quase de manhã e estou aqui de novo, e o dia não acaba. Só de implicância vou mandar essa rádio tocar Raul logo mais.

domingo, 16 de agosto de 2009

Grêmio e Chocolate




Ouvindo o jogo do Grêmio hoje contra o Flamengo, goleada diga-se de passagem, com defesas espetaculares de nome Vítor, não negamos, lembrei dos gols de quando era criança, da vibração que sentia cada vez que a bola encontrava o fundo da rede e com o barulho de abrir uma barra de chocolate. Gritava em frente à televisão na sala lá de casa, sem ao menos saber de que era feito o futebol (o chocolate eu sabia), mas com uma camisetinha azul listrada, estufava o peito e repetia “Gooooool do Baltazar”. E isso com a boca e as mãos recheadas de chocolate.


Doces lembranças estas. Mais doces que o sabor do chocolate. Hoje senti falta desse sabor. E Bebeto, me perdoa...


"Hei, hei, Flamengão... não bate nessa bola com desprezo, toca nela com razão..."

Mas hoje não.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

E pelo caminho... Ficas


Vivien Leigh
"E o Vento Levou"
Adorável personagem...

Em uma mudança a gente vai perdendo tanta coisa pelo caminho, tanta coisa se quebra, tanta coisa que não se acha mais, copos, panelas, toalhas, cristais. Quebrei minha cara mais de uma vez em uma dessas mudanças, perdi minha vontade de saber mais da vida, não achei minhas indagações, não encontrei meu caminho. Em uma mudança, muita coisa fica para trás, em gavetas antigas, em lixos desconhecidos, em sótãos abandonados. Nunca mais consegui recuperar as coisas que perdi nessas mudanças, por sorte encontrei outras, que não substituem às que perdi, mas que de alguma forma me lembraram que nada pode ser permanente nem ao menos sobreviver a grandes cargas, descobri o desapego. Sobrevivi a isso, mas com certeza essa colher de pau nova que comprei não é melhor que a minha antiga, aonde estão meus copos? Aonde foi parar meu senso de humor? Mas um grande consolo existe ao saber que só com o tempo -e sem revirar lixos para achar alguns caquinhos- essas coisas novas também vão fazer parte mim. Pelo menos até a próxima mudança.
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"Marcelle Drouffe era uma menina sonhadora e precoce; desde os dez meses de idade mostrava sinais de extraordinária sensibilidade - quando você se machucava, não era de dor que você chorava - disse-lhe mais tarde sua mãe -, mas porque se sentia traída pelo mundo.
Os pais mimavam-na, e era tão bem comportada que nunca a repreendiam. Cedo, porém, conheceu o gosto das lágrimas; ao anoitecer, escondía-se debaixo da escrivaninha do pai ou atrás da grossa cortina da sala, e se deixava invadir pela tristeza e pela noite. Pensava nas crianças pobres, nos órfãos cuja história lera em grandes livros dourados; ficava a se lembrar de que um dia seria adulta e a mãe não a poria mais no colo, ou então imaginava que os pais estavam mortos, que se achava sozinha no mundo. As lágrimas rolavam pelo seu rosto e sentia o corpo afundar-se num delicioso vazio."
(Simone de Beauvoire- Quando o Espiritual Domina)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Chove Chuva?




Hoje foi um dia que só olhei para o céu para ver se levava ou não um guarda-chuva. Desde ontem estou mareada, pelo falecido dia dos ais, uns ais que eu tive dentro de mim, que ficaram hoje e que voltarão amanhã... estou marinada de acidêz, de lucidêz e nostalgia. Sinto um cheiro de roupa antiga, de naftalina, de alguma coisa que já passou, mas custa a desentranhar. Então, lamento muito, mas meus ais nunca foram preenchidos por passeios de domingo, amenidades à noite, de ensinar as coisas certas ou fazer os temas junto... sozinha aprendi que um ai pode me fazer chegar mais longe, talvêz não aonde eu chegaria com um "P" antes da bendita palavra, mas mais longe do que acreditaram.


"Antigamente, o defunto tinha domicílio. Ninguém o vestia às pressas, ninguém o despachava às escondidas. Permanecia em casa, dentro de um ambiente em que até os móveis eram cordiais e solidários. Armava-se a câmara-ardente numa doce sala de jantar ou numa cálida sala de visitas, debaixo dos retratos dos outros mortos. Escancaravam-se todas as portas, todas as janelas; e esta casa iluminada poderia sugerir, à distância, a idéia de um aniversário, de um casamento ou de um velório mesmo." (NELSON RODRIGUES)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Coelhos de Marzipã

Assim sendo, não quero mais entender qualquer lógica que me prenda em uma confusão dos diabos aqui nessa existência, são feitos assim, os marzipãs que ganhava de Páscoa quando criança...

Com os dias se esfarelavam, pois temia comer os coelhinhos... O aroma de baunilha que exalavam permanecia intacto, mas não podiam mais ser comidos. Sinto que vou me dissolver, me perder na minha própria identidade, que criei nem sei como, assistindo umas guerras ali, outras aqui dentro.

Não pode ser tão exato assim, preencher os vazios de alguma forma, mas sem a consistência que possa segurar essas bolhas de sabão que insistem em voar dando a sensação de sala cheia, colorida, mas explodem com um pequeno sopro.

Espero, espero, espero... espero que alguém me diga algo que faça algum sentido, que não mais os mesmos consolos de sempre, cansa demais isso tudo. Ainda tenho medo de ferir os coelhinhos de marzipã que a naní fazia, mesmo que desejasse comê-los, me contentava com seu aroma. Eram perfeitos demais. Mas espero... Até hoje tenho esse mesmo medo, medo de me esfarelar sem ao menos ter sido saboreada.

Porque Edith Piaf também está na minha infância...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

É ela?

Ela não sabe o que quer, anda por aí dizendo que sabe, mas nunca soube de nada. Ela inventa histórias, a maioria delas são verdadeiras, mas ninguém acredita... Ela é dramática, isso pode ser seu charme, poderia ser comediante, mas é deveras tímida, jamais falaria ao grande grupo. Incomoda algumas pessoas com seu clássico pessimismo, oriundo de suas vivências em campos de concentração e isolamentos sociais. É filha de Iemanjá. Assusta quando comenta alguns causos. Ela é anônima, mas se expõe tanto que é fácil descobrir quem ela realmente é, não se importa mais com isso, acha que está velha demais. Ela chora. Ela chora muito. Às vezes chora tanto que ela mesma não entende mais nada. Ela tem quem lute por ela, quem a ame... Ela talvez não se ame tanto, mas isso é bobagem a esta altura. Ela ama também, não sabe o quanto, não aprendeu isso há mais tempo atrás, na época que se ensinam essas coisas, mas sente o coração acelerar, ás vezes parece sufocar. Ela é orgânica, quase bruxa. Ela cuida de um ser especial, ela ama esse ser, morreria por ele, é questionada por isso. Ela já cuidou de muita gente, multidões, pequenos sem rosto, mas não pôde cuidar de um. Ela é tímida, isso pode parecer provocação, mas ela de fato é, se esforça para não ser. Faz amizades rápido, essas pessoas a consideram louca. Ela nem entende porque não pode falar a verdade para todo mundo, não gosta de encenar. Ela gosta de música, ama tanto que se perde toda. Sabe andar bem, ás vezes desfila, há não ser quando tropeça, mas parece engraçadinho. Fala coisas que ninguém entende, termos científicos misturados a gírias antigas, alguns semelhantes a compreendem, outros a consideram um ET. Não tolera hipocrisia. Não gosta de fofoqueiros. Gosta de bossa nova, samba, sushi e tequila. Ela curte mambo. Gosta de filme Europeu e de sangue. Curte vinil, meia calça, unhas feitas, livros estranhos, praia e tatuagem. Não tolera música ruim, insetos e outros seres peçonhentos. Faz pedido em estrela cadente, prefere a lua. Não acredita em muita coisa, mas na sorte sim. Tem trevos espalhados pelo corpo. Odeia cachos. Curte sabor cítrico. Não gosta de doce. Tem muito apetite, come demais, por sorte não engorda. Tem pavor a jogos e competições, nunca sequer entrou numa quadra. Gosta de dormir. Beber é fator comum. É uma boêmia á seu tempo, só não sabe tocar instrumentos musicais, arranha na cuíca, perdeu a sua. Já quis ser hippie, cantora de jazz e fashionista, mas optou por cérebros. Queria operá-los com suas mãos, mas só pode com as palavras. Tem um sonho de ser livre, sem ter que se preocupar com absolutamente nada. Odeia angústia e mal estar, horário marcado. Sente muita dor. Algumas dessas dores não passam com remédios. É inquieta, mas pode ficar catatônica por horas. Com sono faz absurdos, tem ataques de riso ou de raiva. Sempre acha que algo está lhe faltando. Dizem que é uma eterna insatisfeita. Não concorda com algumas opiniões a seu respeito. Não quer sair na Caras, mas tem vontade de fazer um curta. Se for trash ela dirige. Tem amigas muito divertidas. Não consegue dormir, desde pequena. Sabe manejar armas, as de fogo e as que solta pela boca, ás vezes magoa pessoas queridas. É sua maior inimiga. Eu mesma não a conheço muito bem. Tem medo de não suportar mais nada, já suportou muita coisa, está cansada, mas ainda gosta de comédia.

"Quando cheguei a Roma pela primeira vez já não acreditava em Deus e tinha apenas a terra como único céu e único inferno. Mas não guardava más recordações do Deus pai dos anos da minha infância e em meu íntimo continuava ocupando um lugar profundo o Deus filho, o rebelde da Galiléia que desafiara a cidade imperial onde eu agora estava aterrisando naquele avião da Alitalia. Do Espírito Santo, confesso, pouco ou nada me restava: Apenas a vaga lembrança de uma pomba branca de asas abertas, que descia em picada e engravidava as virgens. Mal entrei no aeroporto de Roma, um grande cartaz me feriu os olhos: BANCO DO ESPÍRITO SANTO. Eu era muito jovem e fiquei impressionado ao descobrir que a pomba andava metida nisso." (Eduardo Galeano- De Pernas Pro Ar)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Helooooo nurse!


Hahahhaahahahahahahaha... muito bom!

Amor em mim




Digo que sim que estou atrapalhada e não quero a pretensão escolada de repetir uns versos assim, sem ao menos tocar umas notas... Mesmo desafinadas. Não fiz esse tema, não fui nessa aula, não pude sequer revisar o mal dito, não é meu motivo... Não importa.

Elas saem assim, em minutos, sem muita demora, não me descomporta. Não quero ser um poeta, dou a fonte, digo ao certo quem eu leio, quem me chama, quem encanto, sou concreta, ser humano, feito torre ou puro mar, tempestade? Não aporta.

Tenho em mãos a forca de carregar um fardo, não canetas, não palavras... São mãos desastradas que plantam jardins. Aprendi nessa jornada que o amor é quase nada, que se afoga -não se mata- se não pensas tanto assim; descobri que se não sou tão controlada, só me expondo sei de mim.

E se me falo, se me engano, se reajo, não me importa o resultado, tenho início, meio e fim. É por isso que eu sei quem vai comigo, quem me teme, com quem brigo, quem desanda, ou coisa assim. Mas tenha convicção, que a exemplo de minha certeza, falo alto, grito ao mundo, passo forte e com franqueza, ou te dizes ou me calo, pois minha peça tem um ato, e esse já teve fim.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sem rosto



Se não te mostras, ao certo te receio, e, no entanto, mesmo e com despeito, te aceito, para não aprimorar o desengano.


Se não te julgas, tampouco me interessam teus anseios, apenas me enleio, e releio teus enganos, pois amarguras já bastam, às que carrego aqui no peito.

Se me notas- e se te conto tão de jeito- percebo que nem medo, nem amor, nem desencanto... Levas contigo apenas uma marca no peito, que travaste com batalhas, em um dia com um canto.

E não me venhas com palavras sem um nome, que de pronto não te assumo, como parte de meus erros! Se quiseres fazer parte de meu pranto, já aviso com destreza, que não sou tão desumana, e sigo, escrevendo aos que me entendam.

Mas fica, se não te injuria tal notícia, que não te tenho em meus anseios. Mas acredite, não componho ao grande estranho e não minto aos que me odeiam.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A Inveja dos Bois



Não podemos negar que a teoria Darwiniana está mais presente do que nunca em nosso atual modelo civilizatório, não é privilégio atual, mas hoje ela se coloca mais aguda devido à expansão de nossas consciências e da tecnologia, ou seja, do saber. Sabemos que precisamos sobreviver.
É contraditório dizer que ainda somos animais dentro de uma cadeia alimentar, quando falamos em Sartre, Platão ou Woody Allen, mas a seleção natural também nos empurra massivamente a uma condição de auto-preservação instintiva, sem ao menos sabermos direito quem somos, de onde viemos, para onde vamos, ou se vamos. Não nos paralisamos, pelo menos não deveríamos, mas sentimos medo. E sentimos medo a muito tempo. Freud nos diz que efetuamos um tremendo esforço de energia psíquica para suportar o processo civilizatório, e para mantermo-nos inconscientes (menos pensantes) diante de suas demandas corrosivas, contrapondo a lógica da análise que ele mesmo propõe, ou, em último caso, se for sádico, nos remetendo a uma condição de eterno sofrimento, que vem indiscutivelmente condicionado ao saber.
Por esta (i)lógica humana, sobrevive quem melhor esquece, ou quem menos sabe, sobrevive no sentido de melhor vive. A ignorância nos traz um alívio, por não saber o que temer. Esta composição que nos é imposta
-ter um cérebro ligado a um tubo digestivo- é que nos confronta com os nossos medos, nossos inimigos, medo primitivo de ser comido -no caso naturalista, orgânico- ou medos cognitivos, existenciais, pelo menos quando conseguimos nomeá-los. Jesus ao deparar-se com o diabo, perguntou-lhe o nome em primeiro lugar, diz a Bíblia.
Saber quais são as nossas limitações, ter consciência de quem somos e ao mesmo tempo não controlarmos nosso corpo, nossa carne, nossa perecividade e nossa condição animal é o maior desafio jamais existente para qualquer ser vivo neste planeta, e ao mesmo tempo o maior dilema para mantermo-nos à salvo, preservando nossa espécie no tempo e no universo. É por isso que se somos nada, somos tudo. Somos Deus em um corpo, justamente um corpo que nos desafia à maior experiência avassaladora para a transcendência, a experiência do não controle. Assim sendo, e lendo um trecho de um texto de Clarice Lispector, confirmo minha tese de que bois é que são felizes em sua vasta ignorância, sinto inveja dos bois, calmos, pastam no campo, suportam chuvas, andam em grupos, ricos em sua plenitude, plenitude única dos animais que conseguem coexistir e preservar sua organicidade com o cosmos, sem temê-lo.


“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: É uma lucidez vazia, como explicar? Assim como cálculo matemático perfeito, no qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio e nem entendo aquilo que entendo, pois estou infinitamente maior que eu mesma e não me alcanço. Além do que, o que faço com essa lucidez? Sei também que essa minha lucidez pode se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que -em termos de nossa acomodação diária e permanente acomodação resignada à irrealidade- essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me de novo a consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.” (Clarice L.)


sábado, 25 de julho de 2009

Um minuto de sua atenção...

Samba Contemporâneo... base roots, mas sempre de raiz... palpita o coração... linda voz, um banquinho e um violão, Roberta Sá e Trio Madeira... trapiche na Gamboa... um minuto de sua atenção...

A quem interessar possa:

Ao cumprimentá-lo cordialmente, venho por meio deste, comunicar que peço perdão. Não, não te enganes, não é uma carta de amor e nenhuma ameaça posso lhe oferecer, só que já aprendi quem era quem, isso é um dom que carrego desde muito cedo. A ambivalência que me cerca deveria ter alguma serventia, nada poderia ter sido em vão. Mesmo te causando (o já cansativo) estranhamento, aquele mal estar de não conseguir me entender, ou de te causar espanto seguido por uma ausência de reação, a ponto de não saberes o que falar, quando calar... essa tua tentativa de não se assustar ou o teu recorrente ar de superioridade, insinuando que eu estivesse louca, já estou acostumada. Agradeço do fundo do meu coração, estas demonstrações me fortaleceram. Não foi por mal, hoje sei que não sou sádica, peço apenas desculpas, não queria assustar ninguém, humildade é importante. Sei que tens tua vida e tuas obrigações, teus divertimentos, não queria pertubar. Tenho me desculpado muito ultimamente, como se não fosse mais voltar, e não vou. Entenda uma coisa, as palavras sempre me foram tomadas, eram mal interpretadas, difícil fazer o bem... pouco pude dizer, mas muito pude fazer. Não sinta raiva de mim por isso, desculpa minhas lamentações? Era difícil dormir. Vou te contar um segredo. Hoje sou povoada não pelas belas palavras que disse, ou pelas lindas historinhas que contei -as que talvez preferirias ouvir- ou pelos sorrisos que dei... sou povoada pelas fortes, muito fortes atitudes que tomei, pela agressividade que me coube em quase todas as situações que precisei, pela impulsividade que resultou na minha não morte em mais de uma vez, pela frieza que trouxe à tona uma realidade que eu neguei até o fim, pela raiva que me fez acordar todos os dias nos últimos 10 anos (dizem que não é bom acordar com raiva) pelo desespero que me fez querer destruir muitas pessoas e pela culpa de saber que elas mesmas estavam se destruindo por conta própria, e eu deixei...pela teimosia que encontrou aliados fiéis, meus melhores cavaleiros, inseparáveis companheiros, que muitos quiseram derrubar, pelo lamento que não me fazia esquecer o que nunca mais poderá ser esquecido. Sou povoada por inúmeras vozezinhas, bem fininhas, bem estridentes, algumas gritam bem alto, outras calam mas sinto que ainda estão ali. Sou povoada por um vazio de fé, o Deus que me foi apresentado na catequese não estava ali, o que eu criei na minha cabeça também não apareceu. Não, nao sou feliz como uma novidade ou confiante nas pessoas: Eu vi de muito perto o que ninguém quer ver. Eu estive lado a lado com o que ninguém quer nem ler. Dizem que me tornei uma pessoa amargurada, até que sou má, louca é consenso. Não me leve a mal, já pedi desculpas, tive que ser forte para segurar tantas mãos... sou boazinha, também sei dar risadas, tenho muitos amigos, sei falar bobagens como ninguém e ser engraçada, um humor peculiar, mas ainda humor. Com isso, e depois de uma sábia amiga me repetir que alguns danos seriam irreversíveis e que depois que você realmente se envolve não há mais volta, e que toda felicidade é momentânea, resolvi aceitar quem eu sou. Não quem tu querias que eu acreditasse que eu era. Resolvi, é uma tentativa, já aviso. Não tenho mais medo dessas caras que não entendem o que eu digo. Jamais entenderão, já sei disso também. Ter tantos espaços abertos no coração, ou mantê-lo inquieto, somados a esta ambivalência, salvaram muitos outros corações... ou melhor, me salvaram. Saiba disso, mas ainda assim me perdoa.
Sem mais, atenciosamente, Fernanda.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Corage Coleeega!

Senta na lage e aprecie bi!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cérebros sempre são importantes...

...Porque diálogo ainda é fundamental... Ôooo se é!


terça-feira, 21 de julho de 2009

Por que não quero falar de amor?


Comuna de Paris
"Resolução"
Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Considerando que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.
Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos tomá-lo
Considerando que ele nos aquecerá
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo
Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.
Considerando que o que o governo nos promete sempre
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões
Outra linguagem não conseguem compreender -
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!


São Paulo Perspec. vol.13 no.3 São Paulo July/Sept. 1999

A Dança da Psiquê


A dança dos encéfalos acesos Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços.
As cabeças, as mãos, os pés e os braços Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.
Subitamente a cerebral coréa Pára. O cosmos sintético da Idéa Surge. Emoções extraordinárias sinto... Arranco do meu crânio as nebulosas. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!
Augusto dos Anjos


INSPIRAÇÃO: ELE É PERFEITO!